Os mitos da Reciclagem

Os Mitos da Reciclagem

Há uns dias partilhei no instagram uma imagem com o volume da reciclagem mensal cá em casa. Choveram reações, a maior parte delas seguidas do emoji 😱 – “Como assim? Só reciclas isso por mês?”, “Como é possível?”, “Como consegues reciclar tão pouco?“.

Hoje estou aqui para vos contar o mistério por detrás da foto, para desfazer alguns mitos da reciclagem e ajudar-vos a reciclar menos. Sim! Leram bem! Quando todos falam em reciclar mais, eu concentro-me em reciclar menos e explico-vos porquê.

Os Mitos da Reciclagem
“Os Mitos da Reciclagem” by @MTowersPhoto

Desfazer os mitos da reciclagem

Atenção! Reciclar é muito importante e este artigo não pretende afastar-vos dos esforços da reciclagem. Mas a reciclagem não pode ser vista como um “penso rápido” ou como um “alívio de consciência” para o excesso de consumo. A reciclagem é apenas uma alternativa para lidar com os resíduos, um último recurso para que não acabem num aterro sanitário. É importante ter noção que reciclar envolve uma gigantesca e dispendiosa logística e que, no fim, nem tudo o que é colocado no ecoponto pode ser reciclado.

“Os Mitos da Reciclagem” by @MTowersPhoto

Descodificar o processo

Em casa, separamos o lixo, colocamo-lo no contentor doméstico e levamo-lo até o contentor local. A câmara recolhe o lixo e transporta-o até às estações de triagem. Na estação de triagem, os resíduos são separados (de forma mecânica, magnética, química e manual) para serem transportados até às empresas de reciclagem onde serão, finalmente, convertidos em novos objectos e transportados, outra vez, para as empresas que lhe darão nova vida ao reintroduzi-los no mercado. Este processo envolve muita energia e muitos custos com transportes, maquinaria e esforço humano.

Reciclar não significa reciclado

No processo de triagem apenas um percentagem dos resíduos segue efectivamente para ser reconvertida. O que não pode ser reciclado, o chamado “refugo da reciclagem”, vai para aterro e consequentemente é incinerado. Neste lote estão, por exemplo, os plásticos termofixos que, ao não se alterarem com o calor, não podem ser fundidos nem remoldados em novos objectos e o cartão molhado ou contaminado com gordura que, além de não poder ser reciclado, pode contaminar todo o ecoponto onde foi colocado, inviabilizando a sua reconversão.

Os Mitos da Reciclagem
“Os Mitos da Reciclagem” by @MTowersPhoto

A solução está antes de reciclar

A reciclagem dá-nos a falsa segurança de que podemos consumir o que quisermos desde que reciclemos a seguir. Como já vimos, este processo tem pesados custos e nem sempre colocar no ecoponto significa “reciclado”. Antes da reciclagem, na pirâmide contra o desperdício, está o “Recusar”, o “Reduzir” e o “Reutilizar” e é nestas atitudes que temos de investir:

  • Reduzir o consumo, como rescrevi no artigo “Viver com menos”, reduz o número de embalagens a reciclar;
  • Comprar a granel reduz drasticamente o número de embalagens que chegam a casa e, consequentemente, a logística “reciclar”;
  • Comprar legumes e frutas embaladas em plástico está fora de questão;
  • Recusar todo e qualquer plástico descartável;
  • Detergentes refill como os da Eco-X eliminam as embalagens volumosas que vão para reciclar;
  • Champôs e amaciares sólidos também afastam embalagens da reciclagem;
  • Apostar num kit de reutilização (garrafa, copo, saco para as compras, talheres, palhinha, guardanapo) ajuda-nos a evitar descartáveis;
  • As embalagens de comida home-delivery/take-away eram uma grande fatia dos meus contentores. Fazer mais refeições em casa ajudou-me a minimizar a reciclagem;
  • Sempre que possível, optar por embalagens de vidro ou alumínio (100% recicláveis) em vez de embalagens de plástico ou cartão pois podem não ser recicláveis como escrevi acima;

Quando aplicamos estas sugestões, vemos que os nossos contentores domésticos demoram a encher e isso mostra-nos que estamos no bom caminho.

30/09/2019

Reciclar vs aterro

Depois de todos os esforços para “reduzir” e “reutilizar”, as embalagens que chegam a casa devem ser correctamente separadas e colocadas nos ecopontos, sob pena de irem parar a um aterro sanitário. O lixo que vai para aterro, além de contaminar os solos e cursos de água, é incinerado para “valorização energética”, ou seja, para produzir energia que alimenta as nossas casas. A queima dos resíduos tem associada a formação de produtos poluentes como furanos, dioxinas, metais pesados e cinzas tóxicas que precisam dum encaminhamento cuidado. Estes custos são muitíssimo maiores aos custos que descrevi para a reciclagem. Quanto mais materiais conseguirmos encaminhar para a reciclagem, menos terão que ser encaminhados para estes destinos, reduzindo as preocupações a eles associadas.

Reciclar Bem ♻️

Eu sei que reciclar pode ser confuso – são muitos os desabafos que me chegam e, às vezes, também eu tenho dúvidas – mas existe muita informação ao nosso alcance. É muito importante reciclar bem de forma a não colocar em causa toda a cadeia de reconversão. Invistam o vosso tempo, leiam sobre o assunto, questionem, passem a palavra. O site da Sociedade Ponto Verde é muito útil, assim como a WasteApp – uma aplicação desenvolvida pela Quercus que nos diz onde colocar o quê.

Os Mitos da Reciclagem
“Os Mitos da Reciclagem” by @MTowersPhoto

No entanto, a reciclagem deve ocupar o seu devido lugar. Devemos ter noção das logísticas e dos custos envolvidos para, depois, reconhecer a importância de reciclar de forma correcta, esgotados o “Recusar”, o “Reduzir” e o “Reutilizar”. 🌿